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Octávio Ignácio
Octávio nasceu em 1916 no estado de Minas Gerais. Instrução Primária. Conseguiu durante tempo bastante longo reprimir pulsões homossexuais. Casou-se, teve um filho. Sua profissão de serralheiro, trabalho que lida com ferro e fogo, implica em afirmação de masculinidade.
Mas no carnaval de 1950 ocorreu-lhe fantasiar-se vestindo roupas femininas. Diante do espelho, vendo-se naquele travesti, Octávio foi tomado de súbita e frenética excitação. Resultado: internação, quarto forte. Sua folha de observação clínica registra violenta excitação psico-motora, idéias delirantes de perseguição; diagnóstico: esquizofrenia. Seguem-se mais 12 reinternações, sendo a última em dezembro de 1966. Octávio vem freqüentar, em regime de externato, o atelier de pintura do Museu. Somente uma reinternação ocorreu, desde que ele pratica as atividades expressivas de desenho e pintura.
O problema crucial de Octávio é o conflito entre os opostos básicos masculino/feminino, de onde irrompem intensos desejos Muitos de seus desenhos revelam este drama em um nível próximo à consciência, quando os opostos assumem forma humana. Aparecem sob a forma de casais em luta ou de seu corpo masculino adquirindo características femininas. No caso de Octávio a supremacia do feminino não é aceita, ao contrário do que aconteceu no famoso caso Schreber, estudado por Freud. Raramente Octávio se rende. Sente-se ameaçado, percebe dentro de si mesmo a força do feminino, mas apesar disso luta para que o princípio masculino não seja completamente vencido.
Sob a pressão desse violento conflito a psique cindiu-se. Cindiu-se mas não se anulou. O dinamismo das forças inconscientes é constante - instintivamente desenvolve-se um processo no sentido de promover reconciliação entre esses opostos em guerra. Na linguagem arcaica das imagens simbólicas, deu forma às tumultuosas emoções que abalavam sua psique, despotencializando suas forças, bem como as tentativas instintivas para saída do impasse em que se encontrava. Configura então o pássaro de duas cabeças, símbolo do hermafrodita, de união de opostos, segundo representações encontradas em tratados de alquimia.
O processo psíquico desenvolve seu dinamismo por intermédio da criação das imagens simbólicas. Jung diz que "o símbolo é o mecanismo psicológico que transforma energia." Assim, a objetivação de imagens simbólicas no desenho ou na pintura poderá promover transferências de energia de um nível para outro nível psíquico. A imagem não é algo estático. Ela é viva, atuante e possui mesmo eficácia curativa. Suas melhoras clínicas comprovam essa afirmação.
Octávio era uma pessoa extremamente inteligente e elaborava pensamentos e idéias com grande poder de síntese. Seus trabalhos, em sua maioria no ateliê de pintura, eram realizadas com intensidade, muitas vezes em pé - três a quatro por dia, totalizando 6.140 obras. Dava preferência ao lápis cera, realizando desenhos com as mais diversas temáticas, desde o simbolismo animal, predominantemente o cavalo, imagens de rituais arcaicos, imagens que evocam Dionisos, metamorfoses, seres fantásticos até imagens que encontram paralelo com a simbologia alquímica. Certo dia ao chegar ao Museu, Octávio dirige-se a mim, dizendo que embaixo da igreja existia ouro que não era comum. Pois brilhava tanto que para olhá-lo era necessário usar óculos escuros, senão poder-se-ia ficar cego. É evidente que Octávio falava simbolicamente e que esta imagem correspondia ao ouro alquímico meta do opus , símbolo do self . Devido ao problema dos opostos, o seu inconsciente recorreu a imagens próximas da alquimia como compensação à sua situação emocional com variados símbolos como: vasos, ovos em transformação, pássaros, Mercúrio com a balança, figuras de hermafroditas.
Em 1978 publicou-se o livro Os Cavalos de Octávio Ignácio no Museu Nacional de Belas Artes, organizado pela equipe do Museu, com desenhos e textos de sua autoria. Sua primeira reação ao livro foi negativa pois achava que seria desnudado com o mesmo, pois seu conteúdo revelava muito de si mesmo. Com o passar do tempo aceitou a idéia e foi, orgulhoso, ao lançamento, autografando os exemplares com sobrenomes da antiga realeza portuguesa do Brasil: Octávio Ignácio de Orleans e Bragança Dom Pedro II! Os direitos autorais que recebia da publicação repassava inteiramente ao seu filho. Octávio era pessoa afetiva e dedicava parte do seu tempo ajudando no trabalho com as crianças do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Esta sua preocupação, era provavelmente motivada pela infância difícil que teve.
Suas obras participaram de exposições, publicações, documentários. Freqüentou regularmente o ateliê de pintura até sua morte em 30 de agosto de 1980.
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