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Apresentação
Na década de 40, Nise da Silveira, inconformada com os métodos de tratamento em uso na época, busca novas formas terapêuticas para os internos do Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, onde trabalhava. Sua sensibilidade apontava para outros caminhos que não fossem o coma insulínico, ou o eletrochoque, que provoca crises convulsivas e perda de consciência. Ela não conseguia aceitar essas práticas.
Funda então, a convite do Diretor Paulo Elejalde do C.P.N., a Seção de Terapêutica Ocupacional (1946), instalando diversas atividades e imprimindo-lhes um caráter predominantemente expressivo e não exclusivamente pragmático, segundo uso na época. Seu interesse era compreender o que se passava no mundo interno daqueles indivíduos tão herméticos, cuja linguagem verbal, dissociada e cheia de neologismos, tornava difícil a comunicação.
Foi principalmente através das atividades expressivas, como a pintura e a modelagem, que encontrou acesso aos processos psíquicos que se desdobram no interior desses indivíduos.
Desde o início a Seção de Terapêutica Ocupacional foi atraindo para seus diversos setores de atividade pessoas que levavam uma vida completamente incógnita por trás de seus uniformes, abandonados ao azar da não-ação. Na luta pela mudança do ambiente hospitalar através da terapêutica ocupacional, surgiram quase ao mesmo tempo seres excepcionais como Emygdio, Raphael, Adelina, Isaac, Carlos, Fernando, Abelardo, Octávio, Lúcio, possuidores de uma capacidade de expressão extraordinária.
Que força terá unido tantos destinos?
As imagens produzidas no atelier levantavam questões, interrogações que não encontravam resposta na formação psiquiátrica acadêmica. Essas questões impulsionaram Nise para a busca de conhecimento e aprofundamento dos processos que se desdobravam no interior daqueles indivíduos, através de imagens e símbolos.
A exposição OS INUMERÁVEIS ESTADOS DO SER que o museu ora apresenta, consiste num apanhado geral dos novos caminhos abertos pelo trabalho desenvolvido na Seção de Terapêutica Ocupacional e no museu nos últimos 40 anos.
Os sete temas que dela fazem parte lançam luz em questões ainda obscuras, que levaram Nise a iniciar a reformulação de conceitos estabelecidos na psiquiatria vigente.
No primeiro tema, Miséria do hospital psiquiátrico, a exposição apresenta a visão dos internos sobre a instituição e seus tratamentos através de pinturas e textos. Vemos aí a Seção de terapêutica ocupacional como uma proposta diferente da terapêutica ocupacional praticada na época, ou seja, dando ênfase à expressão de emoções individuais e à comunicação entre os indivíduos que exerciam tais atividades. Tornava-se assim possível o estabelecimento de uma relação humana que vem trazer movimento e vida ao frio ambiente hospitalar.
Noutro tema, Vivências do espaço, muitas coisas foram reveladas através das imagens dos freqüentadores do atelier de pintura. Dentro desse tema, vemos o próprio espaço do atelier focalizado por Emygdio em múltiplas visões, onde aparece nitidamente a interligação entre o espaço externo e o espaço interno.
Ainda para o estudo desse problema, esta exposição apresenta , através de uma série de imagens do interior de uma casa, o esforço de Fernando para recuperar o espaço cotidiano desmoronado, sua luta para destacar os objetos e reorganizá-los a partir de uma linha de base até alcançar a casa completa.
A psiquiatria diz ser a abstração e o geometrismo uma característica do estilo esquizofrênico, significando embotamento afetivo e intelectual.
Essas afirmações não correspondiam à documentação revelada no atelier de pintura. Desde logo a expressão das faces, a atividade das mãos dos pintores revelavam a emoção, a angústia, e mesmo o esforço para, através da abstração e o geometrismo, fazerem oposição ao caos e à confusão do estado psíquico. Foi através dessas observações no atelier, que Nise começou a verificar a multiplicidade de aspectos e significações dessa temática, e a impossibilidade de estabelecer códigos para sua compreensão.
No quarto tema - Dissociação / Ordenação - , outra questão surpreende. A denominação esquizofrenia significa dissociação, desordenação das funções psíquicas, principal característica dessa estranha doença que rotulava os freqüentadores do atelier. Deveríamos esperar na pintura dos esquizofrênicos imagens que refletissem essa dissociação. Certamente essas imagens apareciam. Mas, ao lado delas, surgiam igualmente formas circulares. O aparecimento perturbador dessas formas na expressão plástica de seres tão dissociados levou Nise a enviar, em 1954, grande quantidade de fotografias de tais imagens ao próprio C.G. Jung. Essas formas, respondeu Jung, demonstram que a psique perturbada, fragmentada, possui um potencial reorganizador e autocurativo que se configura sob a forma de imagens circulares denominadas mandala. Os esclarecimentos de Jung sobre esse problema constituíram o ponto de partida para a introdução de psicologia junguiana no Brasil.
O afeto catalisador: no decurso da esquizofrenia, segundo o pensamento predominante na época, a capacidade afetiva do indivíduo perturba-se e declina até chegar ao embotamento afetivo - chavão tão empregado nos prontuários psiquiátricos.
Entretanto, a experiência demonstra o contrário. No estudo da linguagem plástica de cada indivíduo revela-se uma dramaticidade emocional insuspeitada. Via-se, mesmo em indivíduos onde a capacidade verbal era completamente reduzida e ininteligível, uma vida emocional rica e intensa. A simples presença de uma pessoa solícita, tranqüila, ao lado do doente, pode catalisar inesperados laços de comunicação e assim religá-lo ao mundo externo, como aconteceu no caso de Fernando, apresentado nesta exposição.
Mas também poderá acontecer que funções catalíticas possam ser desempenhadas por animais ou plantas. A utilização de animais como ponte afetiva entre os esquizofrênicos e a realidade externa foi iniciada em 1955, por intermédio da cadela Caralâmpia.
Este trabalho pioneiro não foi compreendido no nosso meio. Entretanto, trabalhos semelhantes são hoje desenvolvidos em vários hospitais psiquiátricos, principalmente nos Estados Unidos.
Foi através de uma conversa entre Jung e Nise (Zurique, 1957) sobre psicopatologia da esquizofrenia, que uma chave para a compreensão da dinâmica dos processos internos foi indicada pelo mestre suíço à brasileira até então descontente com os instrumentos de trabalho em uso na época. Esta chave, dada por Jung, foi o estudo dos Temas Míticos, indispensável para a compreensão dos delírios e imagens pintadas em Engenho de Dentro. Tais temas são a condensação de experiências humanas fundamentais vividas através dos tempos, onde acontecimentos pessoais intensos reativam no mundo interno temas míticos correspondentes.
Na exposição encontramos três exemplos de temas míticos: Dafne, Dyonisos e o Sol.
O último tema da exposição - Que é a ruína esquizofrênica? - questiona o contraste entre a visão de miséria do aspecto externo do esquizofrênico e a riqueza de seu mundo interno. Foram reunidos trabalhos de Emygdio - 23 anos de internação antes de freqüentar o atelier de pintura; e Raphael - forma mais grave da esquizofrenia, doente desde os 15 anos. As obras de ambos são consideradas pelos críticos de arte Mario Pedrosa e Ferreira Gullar de grande qualidade artística. Os trabalhos de Raphael e Emygdio que estão nesta exposição foram selecionados por Ferreira Gullar e Anna Letycia.
O depoimento desses dois artistas faz ruir um dos conceitos fundamentais da psiquiatria tradicional, que considera crônico ou entrando em deterioração o indivíduo com mais de 5 anos de internação.
Apesar de aposentada em 1975, Nise continuou trabalhando intensamente, livre agora de encargos burocráticos. Não cansada das dificuldades e do não-reconhecimento do seu trabalho durante muitos anos, organizou com seus colaboradores exposições, publicações, filmes, audiovisuais, projetos de pesquisa.
Participam da exposição três longa-metragens realizados por Leon Hirszman com fotografia de Luís Carlos Saldanha e textos de Nise, referentes a 3 casos clínicos por ela estudados durante longos anos no museu.
Também estão presentes 12 audiovisuais que sintetizam algumas de suas principais pesquisas, mostrando através de imagens, aquisições teóricas e práticas referentes aos problemas levantados pela esquizofrenia.
O conhecimento das imagens do inconsciente não fica restrito à área da psicopatologia, pois elas têm antes de tudo caráter universal, onde diversas áreas do conhecimento humano se encontram. Mitologia, História das Religiões e da Arte são matérias fundamentais para a compreensão dessas imagens
Vários autores já haviam observado que a esquizofrenia não cabia por inteiro no modelo médico, voltando-se para os problemas sociais. O trabalho realizado no museu procura, além da visão social, aprofundar-se nos problemas do mundo interno, aproximando-os. Este caminho parece-nos uma ponta de lança em direção ao futuro do estudo da psique humana.
Luiz Carlos Mello
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