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Os Inumeráveis Estados do Ser

Há muitos anos, folheando ao acaso numa livraria antigas revistas de arte deparei, numa delas (Cahiers d'Art, 1951), comentários sobre a pintura do surrealista Victor Brauner, com a citação destas palavras de Antonin Artaud: "O ser tem estados inumeráveis e cada vez mais perigosos." Pareceu-me que Artaud se referia a certos acontecimentos terríveis que podem ocorrer na profundidade da psique, avassalando o ser inteiro. Descarrilhamento da direção lógica do pensar; desmembramentos e metamorfoses do corpo; perda dos limites da própria personalidade; estreitamentos angustiantes ou ampliações espantosas do espaço; caos; vazio; e muito mais condições subjetivamente vividas que a pintura dos internados de Engenho de Dentro tornavam visíveis.

Decerto aquelas imagens revelavam perigosos estados do ser, que não se deixavam apreender dentro do modelo médico adotado pela psiquiatria vigente.

A psiquiatria descritiva não dispõe de definição exata para transmitir toda a dramaticidade dessas estranhas vivências. Limita-se a fazer a anumeração de sintomas "básicos" ou "acessórios" da esquizofrenia, como um rol de fenômenos mais ou menos indiferentes. A partir da trilha traçada por Bleuler, seguiu a psiquiatria interpretativa com adendos mais recentes e confusos de diversas escolas psicanalíticas não bastante profundos para alcançar o âmago do ser. Ao contrário, Artaud conhece por experiência própria essas vivências e consegue exprimi-las com uma claridade incrível, levando-nos a concluir que tais "sintomas" não compõem uma doença, uma entidade patológica definida, mas se manifestam como estados múltiplos de desmembramento e de transformação do ser.

Creio que antes de Artaud nunca alguém conseguiu, por meio da palavra, exprimir com tanta força essas dilacerantes vivências. Pela imagem, sim, que é a direta forma de expressão dos processos inconscientes profundos, muitos o fizeram, e fazem todos os dias, usando lápis e pincéis. Pela palavra, não. Pois a linguagem verbal é por excelência o instrumento do pensamento lógico, das elaborações e do raciocínio. E essas experiências, às quais Artaud dá forma por meio de palavras, passam-se a mil léguas da esfera racional.

Uma coisa é o observador, situado do lado de fora, registrar elementos que emergem aqui e acolá, originários de uma trama em desdobramento na escuridão do inconsciente. Outra coisa completamente diferente será vivenciar essa própria trama. Densa objetividade para quem as experimenta, essas estranhas vivências internas apresentam-se àqueles que estão do outro lado do muro como inconsistentes fantasias.

Difícil como fosse, Artaud insistia, tinha necessidade premente de comunicação. "Eu desejaria fazer um livro que perturbe os homens, que seja uma porta aberta e que os conduza aonde eles jamais haveriam consentido ir, uma porta simplesmente contígua com a realidade."

Mas ninguém aceitava seu convite, ou antes preferia negar a existência de qualquer espécie de porta dando abertura para outras formas de realidade em planos desconhecidos. Esta porta se abre para o mundo intrapsíquico, mundo intenso e rico de significações. A saída de volta será difícil e tanto mais difícil devido à não-aceitação desse mundo interno em sua profundeza, não só pelos psiquiatras tradicionais, mas também pela maioria daqueles que os contestam. Laing e outros poucos são exceções.

Os psiquiatras dos hospitais onde esteve internado durante longos anos mantinham-se distantes de Artaud. A incompreensão daqueles de quem era natural que esperasse ajuda foi atroz para ele. Seu revide está gravado na irrespondível Carta aos médicos chefes dos asilos de loucos. É um documento veemente, concentrado e de extraordinária dignidade. Nenhum técnico aí encontrará a mais leve fissura do pensamento. Artaud pergunta: "Para quantos dentre vós (esquizofrênico), as imagens das quais ele é a presa são coisas diferentes de uma salada de palavras?" E continuando com a mesma lucidez, escreve nas últimas linhas: "Possais lembrar-vos amanhã na hora da visita, quando tentardes, sem possuirdes vocabulário adequado, conversar com estes homens sobre quem, é preciso que o reconheçais, não tendes outra vantagem a não ser a da força."

Esta carta soa como o zunir de um chicote de fios de aço. Seja por omissão ou ação, nenhum de nós, psiquiatras, merecerá escapar com a face ilesa.

Através das imagens espontâneas que possam emergir na pintura de pessoas que vivem estados perigosos do ser, o trabalho do Museu de Imagens do Inconsciente consiste, principalmente, em penetrar, ainda que por frestas estreitas, regiões misteriosas que ficam do outro lado do mundo real.

Nise da Silveira (1986)

Outros Textos:

Apresentação de Luiz Carlos Mello

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