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ARQUEOLOGIA DA PSIQUE

Aquele que estudar a psique em profundeza verificará, muitas vezes surpreendido, estreitas semelhanças entre conteúdos emergentes do inconsciente de indivíduos contemporâneos e achados da ciência arqueológica.

Ao longo de sua obra, Freud muitas vezes estabelece analogia entre a análise psíquica e o trabalho do arqueólogo. Já nos primórdios da psicanálise, em 1892, Freud compara seu método de investigação da etiologia da histeria às pesquisas arqueológicas. "Suponhamos que um explorador chega à região pouco conhecida, na qual despertam seu interesse ruínas constituídas de restos de paredes e fragmentos de colunas e lápides com inscrições quase apagadas e ilegíveis. Ele poderá contentar-se em examinar a parte visível, interrogar os habitantes das cercanias, talvez semi-selvagens, sobre as tradições referentes à história e à significação daquelas ruínas monumentais, tomar nota de suas respostas e prosseguir viagem. Mas também poderá fazer outra coisa: poderá ter trazido consigo instrumentos de trabalho, conseguir que os indígenas o auxiliem em seu labor de investigação e, com eles, atacar o campo das ruínas, praticar escavações e descobrir, a partir dos restos visíveis, a parte sepultada" (...).

Em 1922, em A Psicanálise e a Teoria da Libido, Freud escreve: "No curso de investigações sobre a forma de expressão criada pela elaboração dos sonhos, surgiu o surpreendente fato de que certos objetos, situações e relações são representados indiretamente por símbolos, usados pelo sonhador sem que este compreenda sua significação e para os quais, em regra, não oferece associações. Sua tradução terá que ser feita pelo analista, que somente descobrirá empiricamente, adaptando-a experimentalmente no contexto. Mais tarde verificou-se que usos lingüísticos, mitologia e folclore apresentavam as mais amplas analogias com os símbolos dos sonhos. Os símbolos levantam os problemas mais interessantes e até então não resolvidos. parecem ser fragmentos de um equipamento mental herdado, extremamente antigo. O uso de um simbolismo comum estende-se muito para atrás do uso de uma linguagem comum".

Noutro ensaio, A Civilização e seus Desconfortos, de 1930, retoma a mesma comparação. Imagina Roma vista num corte em profundeza, conservadas as suas diversas fases: a Roma quadrata, pequena colônia erguida sobre o monte Palatino; a Roma dos Septimontium, que reunia a população instalada sobre sete colinas; depois a área delimitada pela muralha de Sérvio Túlio; a seguir, a cidade cercada pelas muralhas construídas pelo Imperador Aureliano e, posteriormente, cada fase de transformação da cidade eterna, tudo preservado, todas as fases conservadas intactas e não apenas ruínas esparsas, correspondentes a este ou àquele período.

Assim seria a vida psíquica do inconsciente. Seus conteúdos manter-se-iam permanentemente iguais, nada se apagaria nem se destruiria. No seu último livro Moisés e a Religião Monoteísta (1938), Freud retoma e fortalece o tema da herança arcaica. "O comportamento de uma criança neurótica em relação a seus pais, no complexo de Édipo e no complexo de castração, apresenta-se injustificado em certos casos e só pode ser compreendido filogeneticamente em relação a fatos vividos por gerações anteriores. Valeria a pena reunir e publicar o material sobre o qual me baseio para emitir esta hipótese. Creio que sua força demonstrativa seria suficiente para justificar outras suposições e poder afirmar que a herança arcaica dos homens encerra não só predisposições, mas também traços de recordações vividas por nossos primeiros antepassados. Deste modo a extensão e a importância da herança arcaica aumentariam extraordinariamente".

Portanto, permanecem gravadas sob as experiências do indivíduo as experiências ancestrais. Estudando as marcas persistentes dessas experiências, sem dúvida Freud trabalhou como um arqueólogo da psique. (...)

Jung praticou, na psique, investigações de tipo arqueológico em dimensões até então ainda não realizadas. Suas principais descobertas fizeram-se na área das camadas subjacentes ao inconsciente pessoal, nas profundas camadas psíquicas que constituem o lastro comum a todos os homens e onde nascem as raízes de todas as experiências internas fundamentais, das religiões, teorias científicas, concepções poéticas e filosóficas. (...)

Desde o início, ele via o inconsciente num constante trabalho de revolver conteúdos, de agrupá-los e de reagrupá-los. A imagem arquetípica representa não somente alguma coisa que existiu num passado distante, mas também alguma coisa que existe agora, isto é, o arquétipo não é exatamente um vestígio, mas um sistema vivo funcionando no presente.

Mais tarde, porém, através da experiência clínica, chegou à conclusão que algo ainda mais importante acontecia: os conteúdos do inconsciente não se mantinham necessariamente iguais para sempre. Eram susceptíveis de metamorfoses. O inconsciente sofre mudanças e produz mudanças, influencia o ego e poderá ser influenciado pelo ego.

Será possível acompanhar essas mudanças através dos sonhos, nos casos individuais e nas imagens pintadas quando estudadas em séries, sobretudo nos psicóticos.

Característica comum a todas essas pinturas é a presença de um simbolismo primitivo. Freqüentemente nelas se constata qualidades arcaicas inegáveis, que indicam a natureza das forças criativas que lhes estão subjacentes. "Trata-se de correntes de forças irracionais, produtoras de símbolos que fluem através de toda a história da humanidade, e são tão arcaicas que não é difícil encontrar para elas paralelos na arqueologia e na história comparada das religiões". Podemos, portanto, admitir que essas imagens surgem das regiões da psique, que Jung denominou inconsciente coletivo. Sob essa denominação, ele entende um funcionamento psíquico inconsciente comum a todos os homens, fonte não só das pinturas simbólicas modernas, mas de toda a produção similar do passado. Essas imagens nascem de uma necessidade natural e vêm satisfazê-la. tendo presentes esses dados, compreender-se-á por que a psicologia junguiana não se interessa unicamente em fazer achados arqueológicos nas produções inconscientes e em interpretá-los como sobrevivências de mundos mais antigos. Afigura-se a esta psicologia ainda mais importante descobrir, acompanhar, nessas produções, o contínuo processo de elaboração dos conteúdos da psique.

Nise da Silveira
(texto extraído do documentário Arqueologia da Psique)

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