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MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE

O museu é a coleção. Suas obras foram realizadas no ateliê de pintura da Seção de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro, hoje Centro Psiquiátrico Pedro II, localizado no bairro de Engenho de Dentro. A seção foi fundada pela dra. Nise da Silveira, que lá trabalhou de 1944 a 1975.

O conceito subjacente ao trabalho consistia em experimentar uma nova forma de terapia ocupacional, que servisse de modelo para outras instituições psiquiátricas. O objetivo era portanto terapia, e não arte.

O ateliê começou a funcionar em 1946, sob minha orientação, e lá trabalhei até 1951. É a esse período que me refiro aqui.

A tarefa inicial do ateliê consistiu em descobrir interessados em trabalhar com pintura, buscando-os nas enfermarias e nos pátios dos hospitais, entre centenas de internados. Deve-se apenas ao acaso a revelação de personalidades como Arthur Amora, Emygdio de Barros, Fernando Diniz, Raphael Domingues, Adelina Gomes, Isaac Liberato e Carlos Pertuis. Porém, o que mais nos impressionava não era o acaso que nos permitiu descobri-los, mas o acaso a encobrir outras personalidades, que permaneceram desconhecidas. Essa frustração aumentava a obsessão da procura.

Os internados trabalhavam regularmente, o que contribuía para seu crescente domínio da técnica pictórica. As pinturas foram realizadas sem orientação teórica e sem conhecimento de reproduções de obras de arte, para preservar a projeção direta de formas e símbolos do inconsciente.

Pelas próprias características dos indivíduos que ali estavam, não havia influências recíprocas. Cada um se concentrava integralmente em seu trabalho, o que me permitiu atuar junto a eles como pintor e, não como monitor vigilante.

ARTHUR AMORA teve uma breve passagem pelo hospital, no final da década de 40, e não há maiores dados a seu respeito. Chegou ao ateliê desejando pintar, mas declarando que não sabia desenhar. Propus-lhe buscar um motivo que o interessasse. Descobriu uma caixa de dominós e copiou-os inteiramente. Depois, começou a simplificá-los, abandonando os pontos, encobrindo as faixas brancas e pretas, rompendo os ângulos, encontrando curvas e criando estruturas de forte contraste óptico.
Considerava o branco e o preto como cores suficientes para seu trabalho. Porém, recusou-se a mostrá-lo a seus parentes, pois temia ser considerado perigoso. Queria voltar para casa.

Produziu cinco óleos, quatro desenhos e projetos sobre papel. Depois, afastou-se do hospital.

Suas composições em branco e preto foram realizadas aproximadamente entre 1949 e 1951. Na mesma época, grupos de pintores auto-intitulados "concretos", influenciados pela pintura "concreta" suíça - de caráter geométrico -, discutiam no eixo Rio-São Paulo sobre quem seriam os protagonistas do movimento no Brasil. Os trabalhos de Amora revelam um geometrismo conseqüente e livre de influências estrangeiras.

EMYGDIO DE BARROS nasceu em 1895. Foi internado em 1924 e morreu em um asilo geriátrico em 1985, ou 86. Freqüentou o ateliê a partir de fevereiro de 1947. Nunca havia pintado antes de sua internação. Mas, depois que começou, não parou mais de pintar, até sua morte.

Suas primeiras paisagens revelaram cores e composições tão surpreendentes que lhe foram dadas grandes telas, para que pintasse com maior liberdade. Pintava vivências anteriores, visualizando motivos que se sucediam de um lado a outro da tela. Depois retocava as imagens e repintava-as, umas sobre as Outras. O maior de seus quadros não permite que se revelem, sob as várias camadas de tinta, momentos artísticos que se perderam para sempre. Providenciei, então, maior quantidade de material, para que ele pudesse pintar suas reminiscências em diferentes telas. Ele compreendeu e assim o fez. Pintou cerca de 3 mil quadros.

ADELINA GOMES nasceu em 1917. Foi internada em março de 1937. Morreu em 21 de novembro de 1984.

"Agressiva e perigosa", esta foi a descrição que recebemos dela e que aconselharia a não aceitá-la no ateliê. Interessado, porém, nas bonecas que ela fazia no hospital, fui buscá-la num dia chuvoso, protegendo-a com um guarda-chuva. Essa atenção, tão normal, naquelas circunstâncias deve ter contribuído para conquistar sua confiança. Adelina revelou-se dócil, simpática e concentrada em seu trabalho de pintura e modelagem, que produzia com impressionante força de expressão.

FERNANDO DINIZ nasceu em 1918. Ainda vive. Internado, tem a "liberdade" de fechar e abrir a porta de seu quarto com a chave que possui.

Quando chegou ao ateliê, não levantava a cabeça e sua voz baixa mal se ouvia. Ao ser perguntado sobre a razão da beleza de suas pinturas, respondia: "Não sou eu, são as tintas".

Pintava em blocos de papel, da frente para trás e de trás para a frente, separando as folhas que se colavam devido ao óleo das tintas, corrigindo e repintando, folha por folha. Cobria cartões, telas e papéis com estruturas de composições diferentes, como paisagens, interiores, símbolos, reminiscências, números, letras e construções geométricas.

O reconhecimento de seu trabalho em exposições, entrevistas e publicações transformou o jovem tímido em um homem satisfeito com seu êxito. Em 1994 ganhou a Bolsa Vitae de arte, para realizar em desenho animado um filme de 16 mm sobre seu próprio trabalho. Agora conversa sobre seus quadros e fala sem interrupção.

RAPHAEL DOMINGUES nasceu em 1913. Foi internado em 1932. Começou a freqüentar o ateliê em 1946. Morreu em 1979. Era o único que havia estudado desenho antes da internação, embora seus desenhos daquela época fossem mais acadêmicos.

Emygdio descobriu a pintura no ateliê. Raphael, hábil desenhista, foi encaminhado para lá porque vivia garatujando nas paredes da enfermaria onde vivia. Quando chegou ao ateliê, seus desenhos reproduziam as estruturas livres de associações naturalistas. Um dia, contrariando a prática de não influenciar a produção artística dos freqüentadores do ateliê, alguém sugeriu-lhe que pintasse um cavalo. E ele imediatamente desenhou o animal. Esse acaso levou-nos a tentar estabelecer um contato entre seu mundo interior e o nosso; incentivando-o a buscar outros modelos no mundo exterior.

Assim, fomos vendo nascer no papel naturezas mortas e vivas, objetos, plantas, frutas e figuras humanas, como as meninas vizinhas, sua mãe, o crítico Mário Pedrosa, o poeta Murilo Mendes e os pintores Abraão Palatnik e Ivan Serpa, que iam vê-lo desenhar. Desenhava rapidamente, com linhas que muitas vezes reproduziam gestos que fazia fora do papel.

Trabalhava também em casa, nos períodos em que deixava o hospital.

O trabalho com Raphael despertava fascinação, respeito e dedicação e ele correspondia com suas obras. Minha viagem para a Europa, em 1951, interrompeu nosso contato. Raphael nunca mais desenhou como antes.

ISAAC LIBERATO nasceu em 1906. Foi internado em 1930. Morreu em 1966. Isaac pintava com prazer, lentamente. Manifestava menos interesse pela pintura do que pelo piano, que tocava de ouvido. Sem conhecer música, produzia no piano melodias que lembravam Ravel e Debussy.

Desde o início, suas pinturas já prenunciavam o desenvolvimento artístico que ele alcançaria ao longo do tempo, como fica evidente nas paisagens e marinhas reproduzidas neste livro.

CARLOS PERTUIS nasceu em 1910. Foi internado em 1939. Morreu em 1977. Em minhas buscas na enfermaria, os enfermeiros me falaram de um interno que desenhava. Mostraram-me caixas de sapatos cheias de desenhos retangulares sobre papel de toalete e recomendaram que eu não afastasse o homem do serviço de faxina, no qual ele era insubstituível.

Carlos veio trabalhar no ateliê e produziu obras marcadas por projeções simbólicas e por momentos de cores e de formas que surpreendem e impressionam.

As obras do Museu de Imagens do Inconsciente permitem visualizar a força criativa de mulheres e homens isolados da sociedade, cuja sensibilidade exige um tratamento mais digno e mais humano. Classificar seus trabalhos como obras de arte e denominá-los artistas são atitudes que contribuem para superar a trágica realidade de suas vidas, que não deve ser ignorada, senão transformada.

Este livro e as obras escolhidas para ilustrá-lo representam uma ação destinada a enfrentar a discriminação social do alienado.

ALMIR MAVIGNIER
1925 Nasceu no Rio de Janeiro
1946-51, Co-fundador do ateliê do Centro Psiquiátrico Nacional
1951-94, pintor e cartazista em Paris, Ulm e Hamburgo
1953-58, Estudos na Hochschule für Gestaltung, em Ulm
1965-90, professor na Hochschule für Bildende Künste, em Hamburgo
1994 Vive em Hamburgo

Exposições individuais (seleção)

Exposições coletivas (seleção)

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Fernando Diniz Raphael Domingues Emygdio de Barros Arthur Amora Adelina Gomes Isaac Liberato Carlos Pertuis