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UM ACERVO A SER PRESERVADO
Na década de 40, a psiquiatra Nise da Silveira,
inconformada com os métodos de tratamento em uso na época, buscava novas abordagens terapêuticas para os internos de Engenho de Dentro. Sua sensibilidade apontava para outros caminhos que não fossem o coma insulínico ou o eletrochoque, que provocam crises convulsivas e perda de consciência. Ela nunca aceitou essas práticas.
Fundou, então, a Seção de Terapêutica Ocupacional, criando diferentes atividades e imprimindo a elas um caráter predominantemente expressivo, não apenas pragmático. Seu interesse era compreender aquilo que se passava no mundo interno daqueles indivíduos tão herméticos, cuja linguagem verbal dissociada e cheia de neologismos dificultava a comunicação.
Foi sobretudo a partir de atividades expressivas, como a pintura e a modelagem, que nasceu o Museu de Imagens do Inconsciente. Ali, esquizofrênicos marginalizados pela sociedade e pelas instituições psiquiátricas puderam ter espaço e afeto para expressar suas emoções profundas, criando obras de inestimável valor científico para a compreensão do processo psicótico.
Do anonimato das enfermarias e dos pátios de hospitais surgiram personalidades como Emygdio, Raphael, Carlos, Adelina, Fernando, Isaac, Lúcio, Octávio e outras, possuidoras de uma extraordinária capacidade de expressão. Muitos anos de acúmulo da produção diária deram origem a um acervo calculado atualmente em 300 mil obras. O estudo dessas obras possibilita o acompanhamento detalhado dos processos psíquicos de um indivíduo, desde sua percepção da situação sócio-familiar até as profundezas do inconsciente coletivo, onde a linguagem das imagens predomina como forma de expressão.
A organização e o conhecimento de um acervo que reúne tão grande número de obras estão longe de serem alcançados. Fazemos constantes apelos às instituições e aos colaboradores de diferentes áreas culturais para que se interessem por essas pesquisas, pois o conhecimento das imagens do inconsciente não deve se limitar à psicopatologia. Elas têm caráter universal. Mitologia, História das Religiões e da Arte são matérias fundamentais para sua compreensão.
Apesar de aposentada compulsoriamente em 1975, Nise da Silveira continua trabalhando intensamente, norteando as atividades do Mussu de Imagens do Inconsciente. Sob sua supervisão seus colaboradores organizam exposições, grupos de estudo, publicações, filmes, audiovisuais e projetos de pesquisa.
A documentação da experiência revolucionária de Nise da Silveira no Museu de Imagens do Inconsciente é de grande importância científica e cultural. É um mergulho na alma humana. As imagens plasmadas no ateliê apontam novos caminhos para o conhecimento dos processos que se desdobram nas profundezas do inconsciente, comuns a todos nós. Os caminhos abertos por Nise da Silveira nos parecem uma ponta-de-lança em direção à psiquiatria do futuro.
LUIZ CARLOS GOMES GONÇALVES DE MELLO começou trabalhar como colaborador de Nise da Silveira em 1974. Desde essa época vem desenvolvendo, organizando e divulgando o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente (MII) e as pesquisas ali realizadas. Como curador do MII, organizou diversas exposições de caráter científico, tanto no próprio museu quanto nas principais cidades brasileiras. Dirigiu quinze documentários audiovisuais que sintetizam algumas das principais pesquisas realizadas no museu. Estes documentários são apresentados em universidades e instituições culturais, acompanhados de conferências e debates sobre o estudo científico do processo psicótico. Coordena ainda um grupo de estudos interdisciplinares que funciona regularmente no museu.
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