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O GATO COMO CO-TERAPEUTA

Drª Nise da Silveira na Exposição de Zurique, 1957 Os desenhos e pinturas aqui apresentados foram produzidos no Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, por homens e mulheres ali internados com o rótulo de esquizofrênicos.

Quem quer que os olhasse veria apenas seu triste aspecto exterior e jamais suporia que possuíssem riquezas internas surpreendentes. Pusemo-nos em busca dessas riquezas. Não nos movia o desejo de revelar artistas. Buscávamos descobrir que forma tomariam os conflitos e os intrincados e sofridos problemas que decerto se debatiam no mundo interior desses indivíduos incompreendidos, frágeis, que se fechavam temerosos diante de nós. Porém, ao nos aproximarmos deles cordialmente, nunca como se fossem meros "pacientes", logo víamos se esboçar uma relação com possibilidades de crescimento, dependendo de nossa atitude.

Nosso modesto ateliê é caloroso, livre de intervenções opressoras. O material de trabalho é oferecido sem qualquer imposição de temas. Cada um dá forma àquilo que emerge de suas recordações, de seus conflitos e medos, sofrimentos intensos que por outros caminhos não conseguiriam quebrar as camadas mais superficiais da psique, onde se ordena a linguagem racional, expressa em palavras.

Seguimos o ensinamento de Carl Gustav Jung, procurando entender essas manifestações em sua linguagem própria, a linguagem mitológica, que é a linguagem do inconsciente, inconsciente que se apodera, todo-poderoso, do indivíduo, separando-o de nosso mundo. Se emergissem em belas formas, admirávamos, deslumbrados, as instintivas pulsões artísticas involuntárias, espantosamente preservadas. Se, ao contrário, surgissem sob formas menos belas ou até rudimentares, nem por isso deixávamos de procurar entendê-las em suas originárias e arcaicas configurações, reveladoras do processo psicótico.

Não poderíamos, no entanto, deixar de assinalar que, paralelamente ao uso recente de neurolépticos, tornou-se evidente uma queda na qualidade da expressão plástica dos esquizofrênicos, um amortecimento de suas possibilidades criadoras.

Outra característica de nosso trabalho, que desejamos acentuar pela sua singularidade, é a presença de animais sem coleira, que trazem calor e alegria ao frio ambiente hospitalar. Em função dessa presença surgiram relacionamentos inesperados com esquizofrênicos. Os animais tornaram-se verdadeiros co-terapeutas, manifestando seu afeto para com aqueles seres solitários a quem poucos homens ou mulheres sequer dirigiam uma palavra ou um gesto amigo. O cão dá afeto incondicional, sem nada pedir em troca. Os gatos têm um modo de amar diferente. Discretos, esquivos, talvez sejam muito semelhantes aos esquizofrênicos cm sua maneira peculiar de querer bem.

NISE DA SILVEIRA é psiquiatra. Em 1946 fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro. Em 1952, criou ali o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e de pesquisa que reúne obras produzidas nos ateliês de atividades expressivas (pintura e modelagem). Alguns anos mais tarde, em 1956, a dra. Nise, juntamente com um grupo de pessoas animadas pelas mesmas idéias, daria vida a mais um projeto: a criação da Casa das Palmeiras, uma clínica destinada ao tratamento de egressos de instituições psiquiátricas, onde atividades expressivas são realizadas livremente, em regime de externato. Nise da Silveira também é responsável pela formação do grupo de estudos C. G. Jung, do qual é presidente desde 1968. Suas pesquisas deram origem, ao longo dos anos, a exposições, filmes, documentários, audiovisuais, simpósios, publicações, conferências e cursos, tanto sobre terapêutica ocupacional quanto sobre a importância das imagens do inconsciente na compreensão do mundo interno do esquizofrênico. Como reconhecimento da importância de sua obra, a dra. Nise tem recebido condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento: saúde, educação, arte e literatura. É membro fundador da Sociedade Internacional de Psicopatologia da Expressão, com sede em Paris. Seu trabalho e seus princípios inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições psiquiátricas no Brasil e no exterior. Por meio de seu trabalho introduziu a psicologia junguiana no Brasil.

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